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Ensaio autoral

Premissas para uma sociedade minimamente saudável

Por Victor Baptista Piedade

Este artigo é apenas um prefácio de um livro maior que pode (ou não) sair, dependendo do caminho que seguirmos como sociedade. Dada a polarização e o pensamento binário de esquerda / direita que domina o inconsciente coletivo, ler esse texto será um exercício de neutralidade de ideologia, bem desafiador nos dias atuais. Para alguns pode fazer sentido daqui a alguns anos e para outros talvez nunca. E tá tudo bem. O objetivo é promover uma reflexão para a necessidade de remodelarmos o nosso sistema político, partindo da premissa que as décadas passam e o Brasil sempre se arrasta. Neste livro vou propor um desenho de um novo modelo eleitoral, baseado no conceito de Futarquia.

Enquanto a política for encarada como um circo, a sociedade exercerá o papel do palhaço.

Temos um hábito peculiar aqui no Brasil de culto à autoridade. Com muita facilidade, eximimos os políticos da culpa pelas decisões e ações erradas. A mídia até faz aquele mise-en-scène vez ou outra, mas depende do editor e sua pauta. Facilmente erros gravíssimos cometidos pelos políticos são esquecidos e os mandatários seguem seu curso na profissão mais cobiçada por quem almeja o poder maior: ser eleito. No momento em que ganham a eleição, viram um misto de autoridade / celebridade, com muito poder e um tratamento especial, praticamente acima da lei. E o interessante é que adoramos isso enquanto nação. Torcemos por eles, brigamos por eles, protegemos eles (de quem?)… Curtimos inconscientemente o tal do Foro Privilegiado. O Brasil é recordista em proteção de “autoridades”, com mais de 45 mil pessoas especiais acima da lei. Muito provavelmente alguém já fez a correlação desse culto à autoridade com o Descobrimento do Brasil. Ainda somos o mesmo povo naive, nativos adoradores de “super homens”. O que explicaria outra cultura fortíssima até hoje e também correlacionada com a política: o Coronelismo.

A figura do Político-Coronel talvez fizesse sentido para alguns nos tempos em que a informação era escassa. Quem não entendia nada acabava obedecendo o mais poderoso.

A maior Síndrome de Estocolmo do planeta provavelmente seja a relação do brasileiro com os políticos. O Político é um mal necessário que deve ser tratado com muita cautela e rigor. Eles têm acesso ao capital do povo e tendem a gastar de forma irresponsável, quando não gastam de forma pessoal. Entender isso é a premissa principal para qualquer sociedade minimamente saudável. Político não é “autoridade”. Político é servo do povo. A imagem coerente de um político deveria ser de alguém muito tenso, angustiado pela complexidade da missão que o espera. Exatamente como um CEO assumindo uma empresa completamente falida com praticamente todos os indicadores horríveis. Confesso que nunca entendi aquela comemoração que eles fazem quando ganham a eleição, como se tivessem vencido a Copa do Mundo.

“Quando banqueiros jantam juntos, eles falam de arte. Quando artistas jantam juntos, eles falam de dinheiro.” - Oscar Wilde

Esse modelo político que temos vem se mostrando falho porque acaba sendo incapaz de conciliar a retórica eleitoral com a articulação e execução política, o que é primordial para que a sociedade evolua de fato. Políticos são seres humanos extremamente hábeis em capturar as angústias da sociedade do momento. Apresentam-se, então, como legítimos representantes da cruzada contra os males sociais quando são finalmente eleitos. A partir daí, inicia-se a tríade político-teatral: os atores (políticos), o roteiro (retórica) e a audiência (o cidadão). E o foco final é a merda que temos há décadas. (“Merda” é um grito de boa sorte utilizado sempre que um ator entra em cena. Um ator pode desejar “merda” pro outro que está entrando no palco. A história por trás do termo remete ao cheiro de esterco dos cavalos ao redor do teatro. Quando a peça tinha sucesso de audiência, havia muitos cavalos ao redor “estacionados”. Logo, a saída da peça com muito público tinha um odor icônico.)

“Sabe a diferença entre um estadista e um demagogo no processo decisório? Um decide pensando nas próximas eleições, enquanto o outro pensando nas próximas gerações.” - Winston Churchill

Outro ponto: toda a energia da população está no processo eleitoral. Depois de eleitos, apenas a mídia “acompanha” de fato o que está sendo feito pelos mandatários, intervindo ou não de acordo com os seus interesses. Não existe a cultura da cobrança por resultados do poder público. “Quanto custa cada viagem dessas que os Ministros estão fazendo??” “Como pode um juiz viajar usando jato da FAB para assistir a um jogo da Champions League?!” “Ta recapeando de novo o asfalto por que?” “Quanto custou esse evento para os cofres públicos?” Claro, a mídia exerce uma cobrança teatral quando convém. Mas não há a cultura de monitoramento dos gastos do governo. A falta de transparência na gestão do dinheiro público historicamente proporciona uma bonança para os amigos do Rei. Imagina se o governo apresentasse publicamente um DRE trimestral, como as empresas fazem?

"Quando a Lei e a Moral estão em contradição, o cidadão encontra-se na cruel alternativa de perder a noção de Moral ou perder o respeito pela Lei, ambos grandes infortúnios e entre os quais lhe é difícil escolher." - Fréderic Bastiat (1801 - 1850)

Nosso sistema político é um dos mais corruptos do planeta. Pelo Índice de Percepção da Corrupção (Corruption Perceptions Index — https://www.transparency.org/en/cpi/2023/index/bra) em 2023 o Brasil teve nota de 36/100, registrando a 104ª colocação de 180 países monitorados. Em 2024 isso tende a piorar com esse caos do Judiciário. A transparência absoluta e a liberdade de informação são as únicas defesas do cidadão e devem ser defendidas acima de qualquer diferença ideológica.

No ranking de Liberdade Econômica (Index of Economic Freedom 30th Edition https://www.heritage.org/index/), atualizado em Outubro de 2023, estamos em 124º (Coreia do Norte em 176º). O governo deveria facilitar ao máximo todos os negócios geradores de empregos. O Emprego é o melhor programa social de todos. Emprego liberta e dignifica o ser humano. E o governo deveria trabalhar para essa liberdade financeira individual. Mas se analisarmos com calma, vemos que o governo trabalha para a dependência financeira absoluta dos cidadãos. Manter a dependência do Estado é um valor para os políticos: significa manutenção de poder. Aquela velha máxima: “se o Estado controla a sua empregabilidade, ele te controla totalmente.”

“Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las.” - Thomas Sowell

Ideologia é uma ótima ferramenta para manipular o jogo político porque fortalece as diferenças da sociedade. A resultante, claro, é uma cisão social caótica como vemos aqui no Brasil, e que se mostra crescente no mundo todo em geral. Nada mais “sábio” do que colocar a população para se digladiar, promovendo que a ideologia de um seja a responsável pelo mal estar do outro. Voltemos ao teatro: nós, seres humanos, adoramos um duelo e uma novela. Esporte e teatro fazem parte do nosso cotidiano desde sempre e o maniqueismo sempre se fez presente no nosso imaginário. Se o caos social se apresenta, então precisamos de um salvador capaz de “ler essa nossa angústia”. E um roteiro atemporal que historicamente funciona é o grande guerreiro salvador dos mais fragilizados. E como recompensa pela bravura, “receba mais poder e gaste o que for necessário para fortalecer o Estado para evitar futuros inimigos…” Esse roteiro é vencedor. Mas… Não muda nada no final das contas a não ser a manutenção do político lá onde ele quer: no poder. E segue tudo de novo, eleições, angústias, promessas, poder. Em looping.

"Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado."

- George Orwell, 1984

A mídia ainda tem um papel determinante na formação de opinião, capaz de modelar perfeitamente como a sociedade pensa. Nem todos entenderam ainda o quão libertador é a busca ativa pela informação, hoje possível graças a plataformas como o X. E orquestrar uma evolução de uma sociedade precisa de bom senso e responsabilidade coletivo. Toda evolução de qualquer organismo neste planeta tem um caminho árduo e desafiador. Uma criança bem educada certamente não fez o que quis o tempo todo. Uma empresa que cresce e prospera certamente tem diversos momentos de decisões nada populares, porque estas ‘decisões difíceis e nada populares’ fazem parte de qualquer evolução. A mídia não pode usar ideologia para questionar as decisões impopulares e necessárias para a evolução da sociedade a longo prazo. Seria dever de uma mídia madura e responsável ajudar a explicar causa e consequência para todas as decisões impopulares. Manipulação dos fatos e até do passado, como frequentemente acontece aqui no Brasil, são as maiores irresponsabilidades da grande mídia perante a sociedade.

Observe a cultura da censura das “Fake News”, na qual o Estado controla a “verdade”. Observe as principais pautas diárias dos jornais: jogo do poder, violência e populismo salvador. Quanto mais você se sentir inseguro e dependente do Estado, mais poder os políticos terão.

“Dividir para conquistar” ― Julius Caesar

Pensamento ideológico divide a sociedade e permite que os políticos a controlem mais facilmente. A “ideologia” deve ser única: controlar os políticos para fazerem o que tem que ser feito de fato para evoluir a sociedade como um todo. Não existe mágica: uma sociedade saudável evolui no longo prazo e com trabalho feito de maneira responsável pelos políticos. O circo político-teatral que a mídia ajuda a manter é o pior inimigo da evolução de uma sociedade saudável.

“Não conseguimos resolver um problema com base no mesmo raciocínio usado para criá-lo.” Einstein

Nosso modelo político precisa ser repensado. Da forma que está os anos continuarão passando e a evolução continuará distante. Você já ouviu falar em ‘Futarquia’, do Robin Hanson? Seria ótimo se tivéssemos uma mídia proporcionando esse tipo de discussão… Futarquia é um modelo que usa Teoria dos Jogos para derivar um sistema político e econômico onde o mercado se torna “refém” dos interesses da população. É uma mescla de Capitalismo e Socialismo. A Futarquia parte do princípio que o humano (político) é egoísta e individualista, e com poder, tende a costurar benefícios próprios. Baseado nesta premissa, o modelo funciona com Valores e Medidas, despersonificados. Não é mais um político querendo fazer algo... É ‘o que’ e ‘como’ precisamos fazer. Resumindo: a população vota em Valores, o mercado vota em Medidas. Esquece o teatro. Esquece as mentiras eleitorais. É um exercício criativo e disruptivo. E a pergunta que fica: qual seria o aumento de eficiência social se a discussão NÃO fosse mais sobre pessoas (políticos) e sim sobre METAS Socioeconômicas e como atingi-las?