Somos diferentes. Ou Devaneios sobre o etnocentrismo.
Por Victor Baptista Piedade · 23 de agosto de 2004
(escrito essencialmente em 2004, aos 21 anos e atualizado ao longo dos anos)
Projetamos nossa identidade o tempo todo em busca de conexão. A imagem que se projeta de si é a forma primária de transmitir o conteúdo individual. A essência guardamos em uma camada secundária. Projetamos nossa bagagem cultural de forma consciente ou inconsciente para nos conectar socialmente. E a interpretação das atitudes que cada ser faz do outro é a maneira de buscar alguma equivalência afetiva, que determina a união de ‘semelhantes’ em nichos sociais. É o nosso inconsciente trabalhando na validação do outro, julgando signos semióticos e buscando conexão por alguma semelhança ou excluindo pela diferença. Assim que nossa mente trabalha na organização dos nichos sociais: padronizando o que enxergamos a analisando no crivo da bagagem cultural. O diferente assusta e tende a ser repelido. E aquele que se assemelha de alguma forma, é aceito.
Essa nossa identidade orgânica, que nunca para de se metamorfosear, revela o rótulo assumido diante dos demais, muitas vezes de forma estereotipada num mundo dominado pelo impacto da imagem. A visão impacta muito. É o sentido com maior capacidade de análise para conexão afetiva, sendo portando o maior gerador de interpretações e julgamentos. Imagem é quase tudo. Imagem com roteiro conduz uma narrativa. Um homem mau, muito bem aparentado, é mais aceito do que um homem bom, mal aparentado. (Daí a perigosa força da televisão sobre os telespectadores passivos, construindo personagens políticos, maus em essência, mas aparentando salvadores).
Constantemente criamos padrões paralelos aos nossos princípios, ao sermos expostos a um novo paradigma. Antes de adicionarmos à nossa bagagem cultural, analisamos. Se o novo fato é mais disruptivo com a nossa bagagem atual, tendemos a repelir inicialmente, de forma preconceituosa. Funciona como uma regra básica de sobrevivência social, já que o diferente nos assusta. Nós formamos um conceito pré-concebido do fato e buscamos as sinapses que temos para categorizá-lo. Lembrando que a interpretação é variada de pessoa para pessoa por estar diretamente ligada à bagagem cultural do momento, que são as referências que cada indivíduo acumula durante sua vida.
A partir daí paro de pensar em dualismos como certo e errado cultural. Claude Lévi-Strauss criticou de forma brilhante o etnocentrismo. Ou seja: a ‘verdade’ sempre será relativa à bagagem cultural adquirida até o momento. Nem melhor, nem pior. Cada cultura tem a sua verdade. A relativização da verdade se faz necessária por abranger as diversas individualidades e as diversas culturas que existem. Se todos fossem iguais, os comportamentos seriam iguais e completamente previsíveis. Como todos não são iguais, apesar de tentarem se comportar como tais muitas vezes, fica impossível padronizar à força, por maior semelhança que possa haver. E essa é a liberdade individual que foi historicamente reprimida nas diversas vezes em que o ser humano caiu no totalitarismo ‘etnocida’ do comunismo, por exemplo. (O etnocídio é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição.)
Cada ser humano foi exposto a um meio. Estes meios influenciadores podem ser até os mesmos para duas pessoas distintas, mas mesmo assim elas não necessariamente enxergariam a mesma “verdade”. Dois responsáveis: a genética e o contexto. A genética tem sua parte influenciadora na personalidade do ser humano por questões biológicas e químicas, e o contexto no qual as influências surgem ao longo da vida de cada um nunca é o mesmo. Gêmeos idênticos não carregam a mesma personalidade e podem não enxergar a mesma “verdade”.
A conjuntura de valores está em constante transformação. A toda hora paradigmas são quebrados ou absorvidos e novos hypes sociais surgem Essa constante mudança é a elaboração da interminável bagagem cultural que cada um carrega consigo. Os contextos acompanham a mudança. E dentro desses contextos é que analisamos os fatos, sempre julgando-os e tentando colocá-los em alguma caixinha. Por isso as opiniões devem mudar, principalmente com o passar do tempo. Afinal, quanto mais tempo vivido, mais referências são absorvidas.
Utopia à parte e conscientizados em relação à não existência do certo ou errado em relação a uma verdade única, podemos absorver o diferente como um ponto de vista a mais e que no fim só aumenta a bagagem cultural. Uma visão que muito acrescenta, pois mostra uma outra interpretação, por mais absurda que possa parecer, mas que sempre acrescenta informação à nossa bagagem. Não podemos ficar presos unicamente à opinião em si. Se verdade = conhecimento, não há fim na busca.
A opinião deve ser desconstruída constantemente, forjando conhecimento que jamais será finito. É preciso, para julgá-la, buscar entender o fator constituinte dela: o contexto. A mesma fala, executada por duas pessoas, comunica a mesma informação, mas a semelhança pára por aí. Os contextos que levaram cada um dos indivíduos a elaborarem tal pensamento são diferentes.
23 de agosto de 2004
Victor Baptista Piedade
